A Dica da Carolina - AZULEJOS DO MUSEU REGIONAL DE BEJA

June 11, 2020

Saudações viajantes e aventureiros!

 

Muita água correu desde o dia dos Namorados, com a chegada do covid-19 alterando as dinâmicas familiares, económicas e sociais – enfim com três gaiatos em casa digamos que estive ocupadita! 

Aliviado o clima e a logística familiar, apraz-me voltar à escrita destas pequenas dicas para quem tenha vontade de explorar o extenso e surpreendente Alentejo. Talvez este ano, mais do que nunca o “vá pra fora cá dentro”, faça realmente sentido.

Assim, venho partilhar convosco esta minha paixão pela arte decorativa azulejar e convido-vos a visitar o Museu Rainha D. Leonor de Beja, antigo convento da Nossa Senhora da Conceição. 

 

Este museu foi fundado em 1459 pelos Infantes D. Fernando e D. Brites, pais do futuro D. Manuel I, pessoas de elevado nível cultural. O convento estava ligado ao seu palácio e, por isso, usufruiu da mesma dedicação decorativa azulejar, tornando-se num dos mais ricos e sumptuosos do reino.

Fechado desde de 1834, sofreu quase uma demolição total, tendo o seu rico interior desaparecido, também quase na totalidade, vendido e leiloado.

Felizmente, os milhares de azulejos que revestiam as suas paredes e pavimentos ainda existem, ora expostos, ora guardados, no reservatório do museu, que é considerado um dos núcleos mais importantes da azulejaria portuguesa, nomeadamente a arcaica dos séc. XV e XVI, como por exemplo os alfardons e rajolas vindos de Manizes.

Segundo historiadores, podemos considerar dois grandes acervos: o núcleo quatrocentista de fabrico sevilhano e o conjunto de cerâmica azul e branca, da época barroco-joanina.

 

Tenho uma grande admiração por este tipo de peça decorativa, que surgiu primeiro na Mesopotâmia, mas que rapidamente se espalhou pelo Médio Oriente, chegando à Península Ibérica na Idade Média.

 

O azulejo era um produto escolhido para responder às condições climáticas da região onde surgiu. Funcional, resistente e fácil de limpar, é capaz de cobrir de cor, textura e brilho enormes espaços vazios.

 

Ao entrarmos na igreja coberta de talha dourada dos séc. XVII e XVIII, vislumbramos os primeiros azulejos do museu – azuis e brancos, representando cenas do nascimento, vida e morte S. João Baptista. Os oito painéis têm uma função prática e didática, equivalente às pinturas murais religiosas, em detrimento do aspecto artístico, permitindo uma leitura mais acessível aos fiéis (já que muitos na época não sabiam ler).

 

À procura de mais tesouros escondidos, atravessamos a Sala dos Brasões em direção ao Claustro, onde podemos deliciar-nos com diferentes esquemas de revestimento de azulejos do séc. XVII (técnica majólica): os das galerias de S. João Evangelista e do Rosário em que se imitam tapetes, no sentido horizontal e os da galeria de S. João Baptista, no sentido vertical, que simulam os panos de armar. 

 

Neste museu encontramos as diferentes formas de fabrico, cozedura, padrão, cores, usos desta arte. Dos brocados à laçaria e estrelados, do fabrico em  placa lisa (que permitia maior liberdade de movimentos) até à corda-seca fendida (produzida com um molde onde imprimiam os sulcos que seriam preenchidos com óleo de manganês, que queimado na cozedura, delimitava a preto as diferentes cores e evitava as misturas), os meus favoritos.

 

Destque para a sala revestida de azulejos de aresta hispano-mouriscos, com motivos de inspiração renascentista, geométrica e até vegetalista como os ramos de cardo entrelaçados em “s”, que se unem nas extremidades.

 

A capela gótica do Cristo Crucificado revestida de azulejos axadrezados bicromáticos de cor verde e branco, bem presentes na maior parte das paredes do convento, confirma que é a partir da utilização expansiva deste tipo de padrão, que a azulejaria passa a ser uma arte ornamental por excelência portuguesa.

 

No chão da Sala do Capítulo encontramos uma representação de seres vivos como o pelicano, evidenciando a transição do gosto decorativo entre os elementos geométricos mudéjares e os góticos. 

 

É também importante referir o segundo piso do museu, que foi reformulado já mais recentemente e alberga o museu arqueológico com achados da Idade do Bronze, Ferro e Época Romana. 

Em suma, o espólio de azulejos oferecido neste espaço cultural oferece deleite a qualquer um, desde o descontraído apreciador até ao mais informado aficionado da arte azulejar.

Em jeito de despedida, deixo-vos uma pergunta: sabiam que é aqui que está a réplica da janela de onde Mariana Alcoforado se apaixonou pelo cavaleiro francês?

 

                                                           azulejos corda seca

                                                               azulejos séc. XVII

                                                             azulejos mudéjar sevilhanos

 

Carolia Malta

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Alice in Wanderlust

September 19, 2020

A Teia da Guia - o Livro

September 14, 2020

1/15
Please reload

You Might Also Like: