Noites lisboetas ou a música não precisa de tradução

Quando chega a época baixa, um Guia Intérprete pode ficar à vontade uns 3 meses sem trabalhar, ou a trabalhar muito poucos dias. Ao chegar um desses dias de trabalho, sinto sempre a certeza de que estou na profissão certa. Que "isto" não é trabalho, mas gosto! Portugal tem mil defeitos, mas eu consigo ver o bom e com muito gosto mostrá-lo. Após a reunião e antes de jantar, este grupo teve direito a conhecer Lisboa de eléctrico, com uma surpresa... fado! Fizemos uma brincadeira, fingimos que a fadista pedia boleia e para pagar a ajuda, cantou o fado! (um guia também tem de ser actor!!!) Eles deliraram, acreditaram por minutos naquilo tudo, era só telemóveis a fotografar e a filmar. E eu sorria. Chuviscava. Lisboa brilhava. Cantava-se Lisboa num eléctrico à noite! O melhor de tudo foi o final. Ela despede-se, eles aplaudem e conforme a fadista desce do eléctrico, o silêncio apodera-se do mesmo. Olho-os e nota-se que cada um está absorto num pensamento pessoal, vão guardando os telemóveis, uns olham para a paisagem, outros apertam os casacos, uns sorriem, outros colocam um ar mais sério. Um senhor quebra o silêncio: "- Ficou tudo a pensar na vida? Que silêncio!" Todos riem. Achei o comentário tão curioso, tão certo com aquilo que significa Fado! Perguntei-lhes se já teriam ouvido falar do fado e, ouvido fado! Não. Ninguém ali sabia o que era! "Fado, vem de fatum - destino. Curioso que vocês sem saberem o que esta música é e, sem perceberem português, ficaram todos a pensar na vida não é?"

You Might Also Like: