Torresmos para o Petit - Benfica olé Benfica!

Ontem assisti a mais um jogo de futebol do Benfica. Observava os adeptos: a alegria logo nos primeiros minutos, os nervos pouco depois, a ansiedade e por fim um certo descanso - o empate servia! Sorri, porque pensei nos guias que acompanhavam esses benfiquistas. Há uns anos atrás comecei a trabalhar no meio do "turismo de futebol", ou seja, acompanhar grupos de adeptos que seguem o seu clube para todos os cantos do mundo. E é todo um novo mundo. O motivo da viagem é apenas um: ver o seu clube jogar e trazer uma vitória para casa. As primeiras viagens que fiz foi sempre a acompanhar o Benfica (anos mais tarde, a seleção - e o ambiente é outro). Esses dias começavam cedo, muito cedo.Nos dias de jogo saem vários charters de Portugal em direção à cidade da equipa adversária. Cada guia fica responsável por um vôo (cerca de 200 a 300 pessoas) e gere uma equipa constituída por leaders (normalmente jovens que pensam que têm a sorte de ir ver o jogo e que não existe nenhuma responsabilidade, até estarem em campo!) que são por sua vez responsáveis pelo seu grupo (40 a 50 pessoas). Por volta das 05h da manhã já estavamos todos no aeroporto para a reunião de equipa: distribuia-se fardas, mapas, programas, brindes a entregar aos adeptos. O primeiro passo é o check-in e a aventura começa: muitos adeptos viajam com os filhos e esquecem que sendo estes menores é necessário a autorização dos pais para que a criança possa sair do país - custava ver a carinha da criança que tinha que ficar em terra! Sim, porque o pai vai! Outros adeptos julgavam que o cartão de identificação pedido seria o cartão de sócio de Benfica!!! E lá vinha um familiar a voar na estrada para entregar o BI ou o passaporte! Outros deixavam os bilhetes em casa e outros ainda pensavam que viajar de avião seria como viajar de autocarro: há sempre espaço para mais um, e assim vinha o amigo ou o primo na esperança de conseguir viajar também! Ao chegar ao destino normalmente o programa incluía um pouco de tempo livre para um pequeno passeio e refeição, seguido da ida para o estádio (isto quando não havia atrasos e tinhamos que fazer a viagem directa ao estádio e correr com as 300 pessoas atrás de nós para as sentar a tempo de verem o jogo!). Entravamos então em autocarros e cada leader teria que falar um pouco da cidade, ajudar na orientação e muito importante passar a mensagem correcta das horas e local de encontro. E aí podia ir almoçar. Qual não foi a minha surpresa quando vi que um grande número deles trazia comida de Lisboa. Parece que viajar em charters específicos para estes eventos torna todo o sistema de segurança muito mais flexível. Nunca irei esquecer o casal nos seus 70 anos que se sentou logo ali ao lado do autocarro, abriu as caixas plástico e começou a comer uma feijoada, porque "menina a comida desta gente não é nada boa. Não há como a comida portuguesa e eu sou um homem de alimento. Agora comer essas porcarias!!!!" Seguiamos então depois para o estádio. O ambiente até aqui é bem divertido. Todos estão com a certeza de que voltarão a sorrir e com histórias para contar aos amigos, sobretudo a ideia de que estiveram ali, naquele estádio, noutra cidade, no dia que o Clube ganhou! Antes de entrarem no estádio é o momento crítico de chamar a atenção para que não esqueçam onde está o autocarro, porque após o jogo regressam sozinhos e provavelmente será já de noite e os caminhos parecem outros! Sim, a maior parte das vezes, nós os guias e leader não vemos os jogos no estádio. E nesse momento temos que lidar com uma certa desilusão dos jovens que achavam que vinham também a passeio! Quantos tive que ir buscar a pubs porque não estavam no local de trabalho na hora requerida. Quantos tive que tentar fazer sorrir porque o que mais queriam era ver o jogo e lá estavamos nós no meio do nada sem TV sequer. Quantos apareceram apenas no aeroporto e tive eu que gerir 2 ou 3 autocarros! O final da partida: vitória! O ambiente é extraordinário, as pessoas sorriem, cantam, dançam, abraçam-se, estão felizes. Alguns felizes de mais, se me entendem! O único problema nessa altura é a torcida adversária. Lembro-me do dia em Barcelona quando o autocarro foi apedrejado. Tremi de medo, tivemos que nos baixar para proteger caso os vidros partissem. É verdadeiramente assustador ouvir as pedras no metal, sentir o balanço do veículo, ouvir as vozes de raiva! E eu só pensava - isto é apenas um jogo! No caso de derrota - são expressões cabisbaixas, palavrões a voar, um ou outro que ainda tentou agredir alguém e silêncios, silêncios aterradores. O sono torna-se mais presente e a vontade de chegar a casa é muita. Aterramos, e são quase 04h da manhã. Pois é... 24 horas de trabalho. Mas há sempre sorrisos e abraços e agradecimentos e cachecóis que nos colocam ao pescoço. Eu até sou do Benfica, mas se não fosse, guardava com o mesmo carinho. Ah!... num desses vôos de regresso acabei por adormecer de cansaço e lembro-me de acordar com um cheiro que se tornava insuportável: o Barbas oferecia queijos e torresmo ao Petit!

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