Primeiro coma alcóolico

February 28, 2017

Digo, muitas vezes, que sinto-me abençoada nesta profissão: muitos problemas que surgem, de situações muito difíceis e até dolorosas de lidar com, raramente sucederam aos meus grupos. E algumas vezes tive colegas que me ajudaram a resolver os problemas, outras tive mesmo que os resolver sozinha, faz parte da profissão! Nunca tive que lidar com uma morte e só há bem pouco tempo tive um acidente, mas já tive que lidar com hospitais e roubos! 

 Um dos primeiros casos de pânico foi há alguns anos, mas foi um dos casos em que tive ajuda de uma colega, a Carla Mira. Era um daqueles grupos com centenas de pessoas. Aproximava-se o fim do evento e com ele os jantares de celebração. Um dos jantares realizou-se numa tenda montada no espaço envolvente ao hotel. As casas de banho situavam-se um pouco longe da mesma. Os clientes tinham à disposição carrinhos de golf para que pudessem ir da tenda à casa de banho. Eu e a Carla estavamos encarregues de coordenar essa logística. 

 Com as horas a passar, a festa a aumentar, a música já a soar e as danças, as bebidas foram sendo vertidas! Alguns grupos estavam mesmo muito animados. A dada altura um grupo de 4 rapazes muito cambaleantes pede um carrinho de golf. Oferecemos a nossa ajuda para os levar até à casa de banho porque não pareciam em condições de conduzir nem um carrinho de golf. Mas no meio de toda a euforia, os 4 conseguiram apoderar-se do carro. Enquanto um entrava para conduzir, outros brincavam a empoleirarem-se no pequeno carrinho e um dos rapazes cambaleava a caminho do carrinho com um ar muito ausente. Nisto agarrou-se ao carro, o condutor ligou-o e no primeiro solavanco, o rapaz mais cambaleante largou-se e caiu mesmo como uma tábua no chão. Não se mexia. 

Eu... primeira vez em tal situação... achei que ele tinha morrido. Fiquei em silêncio. Depois olhei para a Carla, e ela com um ar muito sereno: "vamos lá ajudá-los". E eu, inexperiente em tais situações, só lhe dizia: "ele morreu, ai que ele morreu. Ai Carla, ele morreu e agora!" Ou seja, não ajudava em nada. Os amigos nem percebiam o que se passava. E a Carla conseguiu que ninguém tocasse no rapaz, conseguiu acalmar-me de modo a que eu chamasse a ambulância. Conseguimos depois afastar os amigos que, penso eu, não percebendo a gravidade da situação, ainda queriam levar o amigo para a casa de banho, e disfarçar a situação a tal ponto que mais nenhum outro convidado conseguisse notar o acidente e com isso estragar a noite a todos. Passados uns minutos a ambulância chegou. 

O rapaz, entretanto, despertou e não sei como, não queria ir para o hospital. Mas teve que ir e a Carla foi com ele. Eu fiquei o resto da noite nos carrinhos a desejar que tal episódio não se repetisse. 

A Carla demorou quase duas horas a regressar, mas ainda voltou antes da festa terminar. E o rapaz também regressou, mas foi directo para o seu quarto. E ela contou: "o rapaz não parava de espernear, mas sem perceber sequer onde estava. 

E o bombeiro só dizia: olhe que não invejo nada a sua profissão!" 

 E nós, passados estes anos todos, rimos cada vez que nos lembramos desta noite. Rimos com o meu pânico, rimos com a calma dela e rimos ao pensar que um bombeiro, um homem que arrisca a vida, não inveja a nossa profissão!

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