Malhão

February 28, 2017

Os grupos de indianos são por norma muito musicais. Adoram ouvir as suas músicas, trazem cds que pedem para colocar a toda a hora, por vezes dvds e acima de tudo adoram cantar (com ou sem apoio de um cd!). Adoram mesmo. E o ambiente pode tornar-se bastante alegre e ritmado.
Cantam em grupo, marcam o ritmo, levantam-se para dançar até que temos que pedir para sentarem, ou escutam atentamente o cantor que se destaca aplaudindo no final.

Certa vez a senhora que queria muito cantar até não tinha assim uma voz muito agradável, mas a pedido entreguei-lhe o microfone para que cantasse.
Cantou a primeira, a segunda, a terceira, todas elas músicas tristes, um pouco na mesma linha de harmonia e no tom agudo, com o detalhe de que a senhora até não cantava assim tão bem, mas ninguém pedia para que parasse.
E assim ela continuou: a quarta, a quinta, a sexta (eu e o motorista já nem sabiamos distinguir quando terminava uma canção e começava outra). A dada altura pensei que não conseguia ouvir por muito mais tempo. E o motorista olhava-me desesperado. 
Precisavamos de um plano. A nossa primeira opção foi baixar o volume do microfone, mas apesar de ter ajudado as outras pessoas do grupo, a nós não ajudou nada. Pois a senhora estava sentada praticamente ao nosso lado agarrada ou colada ao microfone e ouviamo-la na mesma.
Pensei então em dizer-lhe que precisava mesmo de explicar algo.
Ela cedeu.
Comecei a falar. Passaram uns minutos e fiz uma pequena pausa, mas planeava até continuar a explicação.
Pensei errado, pois nesse pequeno segundo de pausa vi apenas uma mão a voar, arrancar o microfone da minha mão e a continuar o seu concerto.
O motorista não conseguiu evitar rir e eu rendi-me.

Outra vez o grupo era verdadeiramente animado e muito mais do que ouvir as minhas explicações, queria cantar e dançar. No autocarro a acompanhar o grupo estavam mais 2 portugueses (os chefes do grupo). Dirigiamo-nos a Fátima. Explicações de Fátima só as consegui dar in loco. Os 115Km foram todos dignos de um filme de Bollywood. 

No regresso o cenário ficou um pouco mais temeroso: "e músicas portuguesas Cátia?"
Esta é uma pergunta que temo, devo confessar. Além de não memorizar nunca uma única letra seja de que canção for (excepto os parabéns e o atirei o pau ao gato!), tenho péssima voz.
Neguei a sorrir. Mas eles insistiram. Voltei a dizer que não. E insistiram. E eu a pedir por favor não e eles a insistirem. Confesso que esta cena demorou algum tempo e percebi que ao contrário do que normalmente acontece, eles não iriam desistir. Os chefes de grupo tocados com tanta insistência olharam-me com aqueles olhinhos de "de certeza que não?" E começaram a querer lembrar-se de canções típicas portuguesas também elas cheias de ritmo.
...
e pela única vez até hoje cantei no autocarro juntamente com os outros portugueses: "oh malhão malhão tum tum tum que vida é tua tum tum tum..."
Rio às gargalhadas ainda hoje a rever este episódio e quando encontro esse casal é impossível não falarmos disso. Custou, mas a verdade é que ri-me imenso e as caras deles felizes a baterem as palmas valeu toda a vergonha que tive!

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