Alzheimer

February 28, 2017

Ontem deparei-me com mais duas situações de pessoas que vivem com esta doença. 

Infelizmente também já vivi com ela no meio familiar e hoje quero deixar o meu apreço pelas pessoas que cuidam com tanto carinho de quem sofre com esta doença. 

Há momento nessa doença em que se torna realmente impossível quase tirar a pessoa doente de casa, mas até chegar esse momento é muito valoroso tentar dar uma vida normal à pessoa doente, mesmo que ela tenha já "ataques" com maior frequência.

 

Nos meus primeiros anos de trabalho quando trabalhava com a Inatel houve um senhor que um dia saiu do hotel sem a esposa reparar e só o encontramos 2 dias depois numa paragem de autocarro. Nesse dia pensei tanto na dureza da vida. Quando andavamos todos à procura do senhor muita gente perguntava: porque viajam estas pessoas? 

Porque elas têm momentos bons e quando estão bem, mesmo que depois esqueçam, viveram momentos bem e perto daqueles de quem amam. 

 

Ontem aconteceu igual. O marido levantou-se para pagar o café e a esposa nesse intervalo entrou no autocarro e voltou para o barco. Ele sem saber ao voltar à mesa e a não vê-la entrou em pânico. Na altura eu não sabia que a senhora sofria de Alzheimer, portanto ela chegou ao autocarro, entrou e foi. Ao chegar ao navio lembrou-se do marido e aflita avisou a colega que estava no cais que talvez o marido estivesse à procura dela. Entretanto o marido já com ajuda dos empregados do café e de pessoas que estavam na esplanada lembraram-se vir ao autocarro. E num momento todas as informações chegaram ao mesmo tempo. Eu recebo uma chamada a avisar da situação e que se aparecesse um senhor à procura da esposa ela já estava no barco, e uns portugueses contam-me toda a história. Disse logo que a senhora estava bem e no sítio certo. O senhor chorou e agradeceu a todos. Foi tão bom ver como toda a gente se preocupara. Imaginem uma senhora estrangeira perdida em Lisboa? Com Alzheimer?

Porque viajaram? Disse ele: "Quando ela está bem fica tão feliz de passear, não posso não lhe dar esses pequenos prazeres"

 

E igual foi a frase de um casal horas mais tarde. Neste caso era o senhor que tinha Alzheimer. Dirigiam-se ao autocarro a sorrirem e a conversarem, lembro porque gostei de ver o carinho entre os dois, reparei neles a uma certa distância. Chegou à porta, a senhora procura o bilhete, vira-se para o marido e diz-lhe para subir as escadas. Nesse mesmo instante ele parou. É essa a rapidez desta doença cruel.

Ele bloqueou e não quis subir as escadas. Começou a respirar de forma ofegante e a querer sair dali.

A expressão na cara da senhora foi de uma tristeza súbita. Ele foi ficando mais nervoso, as pessoas olhavam. Reagi. Pedi para entrarem pela porta detrás e disse à senhora: "tem tempo, não se enerve, se for preciso ande um pouco com ele, há mais autocarros". Ela sorriu e juntas conseguimos falar com ele e acalmá-lo.

 

O olhar de agradecimento não esquecerei.

 

É difícil e pode ser muito perigoso viajar com pessoas assim, mas o prazer de ainda poderem viver momentos bons é muito compreensível.

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